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Mestre patrão

Com mais de 300 obras no currículo, o pernambucano José de Lima Sobral passou por muitas crises na economia, conseguindo manter sua empreiteira aberta há quase 50 anos. Conheça a história bem-sucedida desse empreendedor

Edição 24 - Julho/2009
PERFIL
Marcelo Scandaroli Nome: José de Lima Sobral
Idade: 70 anos
Estado civil: viúvo. Pai de 15 filhos
Empresa: Sobral Empreiteira de Construção Civil
Local de nascimento: Ibirajuba (PE)
Onde mora: São Paulo, há 49 anos
Como aprendeu a profissão: com o pai, desde criança
O maior sonho: construir casas populares para vender

Como o senhor iniciou os trabalhos na construção civil?
Eu ainda era criança. Naquela época, como não havia a possibilidade de estudar na minha cidade (Ibirajuba, em Pernambuco), ou você ia para a agricultura ou para a construção. Como meu pai era mestre de obras de toda a redondeza, ele me levava para algumas construções. Criei-me vendo ele fazer assentamentos para engenho de rapadura, de açúcar mascavo e casas de fazendeiros. Com oito anos de idade, eu já assentava tijolo. E com 13, já era pedreiro, ganhando salário. Fiquei lá até os 20 anos, quando já era mestre de obras para aquela região.

Depois disso, como foi o caminho seguido pelo senhor até decidir abrir uma empreiteira?
Aos 20, decidi vir para São Paulo buscar melhores oportunidades. Comecei como pedreiro e nos primeiros dias já me colocaram como encarregado na construção de casas, pela minha bagagem. Em seguida, saí para procurar novos serviços e conheci um português que era compadre do Jânio Quadros (eleito presidente em 1960). Isso resultou até em obras para a família de Jânio. Acabei fazendo um jardim de inverno para a filha dele. Nesse meio-tempo, entrei para uma construtora, a Racz, onde fiquei um ano e meio como encarregado. Lá, fiz várias obras como galpões, fábrica de papelão, restaurante, entre outros. Foi quando eu já procurava empreitadas, mas não tinha uma empresa para emitir notas, o que dificultava fechar negócios. Daí, em 1963, abri a empreiteira.

Eram tempos bem diferentes de agora? Quais foram os desafios enfrentados pelo senhor naquela fase?
Sim, eram tempos bem diferentes, mas acho que o problema não mudou. O desafio para quem abre uma empreiteira é conseguir seguir à risca as leis trabalhistas, porque é caro demais manter funcionários. E nem sempre você tem muitas obras para garantir seu lucro e o pagamento de toda a equipe. Quando abri, era uma época de muitas obras.
Tinha 10, 12 obras para cuidar, com mais de 100 funcionários. Só que errei ao depender muito dos trabalhos que uma construtora passava para mim. Entre 1977 e 1978, essa construtora faliu e eu quebrei junto. Vejo muitos jovens cometerem esse tipo de erro ainda hoje. Um engenheiro chega, fala para ele abrir uma empreiteira que terá trabalho garantido, e de uma hora para outra, ele fica sem nada. Só com os custos da empresa.

Mas o senhor chegou a fechar a empreiteira? Como conseguiu se recuperar e sobreviver com tantas mudanças na economia dos governos?
Não fechei. Passei quatro anos fazendo poucas obras. Um momento difícil, mas que todo empreendedor acaba passando em alguma fase da vida. Depois de 1982, as coisas começaram a mudar com o governo do presidente Sarney. A inflação era alta e quem trabalhava na construção ganhou muito dinheiro. O motivo é que quem tinha capital ganhava dinheiro com juros altíssimos e essas pessoas aplicavam em imóveis. Mas com a chegada do presidente Fernando Collor de Mello, esse movimento estacionou. Parei 15 obras num só dia. Na minha empresa, sobrou só um servente. Então, entre 1989 e 1999, decidi investir o dinheiro que tinha em outro negócio, um mercado. Assim, mantinha a empreiteira aberta para possíveis trabalhos. Quatro anos mais tarde, saí do mercado e me concentrei na construção novamente. Acho que esse setor só voltou a dar uma clareada mesmo em 1998. De aprendizado, acho que é preciso saber viver com esses altos e baixos do mercado.

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